domingo, 2 de setembro de 2007

Impressão sobre natureza - morta

nnnnnnnnnnnNatureza-morta, 2000

Paulo Sebastião


ela queria dar vida aos corpos inertes através da sua fantasia.
pretendia ressuscitar a natureza-morta que se encontrava
asfixiada. desidratada.
pela secura da sala




Sem título, da série "Ensaio para o Esquecimento",1999

São Trindade


o copo de água não conseguiu m|a|t|a|r sua sede
e diluir a densa atmosfera
.quente.
não conseguiu conceder vida à natureza-morta



La Femme, 2000

Vítor Pomar


já que o resultado não foi o cenário desejado
.perfeito.
ela vingou-se:
serviu-se da ventoinha, que agiu e falou por ela
.personificou-se.
.eis a sinestesia da r|e|b|e|l|i|ã|o.



Tínhamos uma ventoinha permeio desligada, desconfortavelmente silenciada, entre nós.
O calor fazia-se sentir no nosso gabinete. Incomodava tanto quanto o silêncio, desconcertante, que censurava cada gesto e movimento meu. Eu não queria perturbar-te. Não queria que qualquer ruído meu pudesse desconcentrar-te.
A vontade de descruzar as pernas era imensa. Mas não tanta quanto o desejo de ser abraçada por ti, de sentir o vigor com que intensamente cinges os rolos dos projectos, esboços, croquis de plantas que diariamente transportas junto ao peito.
Fiz um esforço tremendo para não descruzá-las e não as descruzei! Creio que não foi por causa do eventual ruído que pudesse ocasionar. Perturbando-te. Mas sim, pela cena ordinária vulgarmente identificada com os filmes românticos pipoqueiros. Não, não as descruzei, nem humedeci os lábios, não!
Decidi ter um comportamento racional. Levantei-me, arredei a secretária e fui buscar um copo de água.
Compreendeste o prelúdio desta dança dessincronizada e abriste a janela. Sorrimos em uníssono num compasso finalmente assertivo."Está calor"!
A brisa fresca invade o gabinete, entra-me pelas narinas, ouvidos e pensamentos, passando então a ser cúmplice dos meus intentos. Rouba a minha ira e viola o sossego do gabinete. do nosso gabinete. Mudo.
Foi ela quem perpetrou a primeira contenda - um turbilhão de papéis ficaram dispersos, lápis rebolaram pelo chão, réguas caíram e esquadros estilhaçaram-se...
Juntos apaziguámos este cenário que parecia ser um perfeito pretexto. Tocaste-me, roçaste-me ao de leve com os teus braços... e o inevitável arrepio da minha pele, bem como o rubor do meu rosto não tardaram a denunciar minha fraqueza!

- "Atchim! Perdão". O meu espirro interpelou-me, interpelou-nos. Interpelou este momento. Raios!
- "Santinha"!.
"Santinha"? - pensei eu - podias ter-me chamado de tudo, menos de santinha... não me parecia que este momento fosse o mais apropriado para ser beatificada.

Entretanto, em jeito de sobressalto rompante, o telefone toca, quebrando o sacrilégio desta minha visceral fantasia. Ele atende.
Com uma mão estende virilmente os rolos dos esquissos sobre a sua secretária e com a outra repousa delicadamente o auscultador no ombro e enceta a conversa com a sua voz máscula. prosaica. serena.
Maldito sejas! Por breves instantes quis que o meu corpo fosse rolos de papéis e minha face um estúpido telefone. Fiquei enciumada.
Gaita! Que se lixe! Chegou o momento de ligar a ventoinha para assistir ao lindo espectáculo de ver tudo a "ir pelos ares"!!! Que o ruído ensurdecedor da ventoinha boicote a tua chamada e que a tralha de projectos se dispersem pelo ar!
Peço desculpa pelo incómodo, mas estava demasiado calor.



(a pedido da c.)

7 comentários:

hiddentrack disse...

A primeira e última fotografia estão qualquer coisa...
A luz e as sombras da primeira fotografia deixam-me hipnotizado, não se deixa ficar pelo p/b. Os efeitos da luz no vidro do copo (e da... fruteira?) são demais.
Gosto da composição de objectos da última foto e do título que lhe foi dado. E o cenário atrás? Mesmo sendo secundário, conseguir um espaço muito desarrumado, cheio de tralha e sujo não é tão fácil quanto se pensa. Consegui-lo de uma forma "natural", não demonstrando que foi propositado.

Acho que resolveste o meu paradóxo, quantas vezes penso em textos para escrever do princípio ao fim e no entanto, fico contente apenas por os ter naquele espaço de tempo na minha mente. Esses que assim, me contento talvez não nascem do chão. Tenho que averiguar isso e começar a dar-lhes outro destino;)

Comentando o assunto... escrever do chão pode ser ou em alguns casos, é mesmo! uma revolta nossa, desespero... e como nós, humanos, gostamos tanto de sofrer ainda lhe damos um sítio.

Melhor de saber, é que adivinhaste a minha ideia de amanhã e já falaste muito sobre ela:)

.uma boa noite.


(novo testamento:D)

Lara disse...

estou expectante e ansiosa! escreve!.

como já te disse e., a inspiração não devia brotar do chão. do duro chão contra o qual tantas vezes batemos. só escrevo quando me sinto chão.

as fotografias são grandiosas. superlativas. mereciam estar isoladas, em destaque, desprovidas do "apêndice" textual:)... mas fico sempre fascinada pelos trabalhos destes artistas. além do mais, este é um espaço no qual tenho a liberdade de cometer erros - utilizar imagens para ilustrar os meus textos...:)

***lara

hiddentrack disse...

dá a volta ao chão!

Lara disse...

já dou pinotes, flick-flacks e tudo!

;)

hiddentrack disse...

flick-flacks! XD

Anónimo disse...

Este já conhecia :P A LARINHA REGRESSOU FINALMENTE!
Bjs

Lara disse...

.saudades suas sr. "mojo pin".
laivos de jeff buckley são sempre bem-vindos "hallelujah"!

**meus