sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Foi lindo e rápido





Lourenço Ventura, assim se chamava. O melhor amigo de qualquer um. Tipo porreiro, melhor dizendo, um tipo formidável.


"(... ) Ora um dia, entre as comadres do costume, o Lourenço fisgou uma gaiata que, se não tinha vindo do jardim do Éden, d’onde caraças a gaiata tinha vindo? Uns olhões grandes como azeitonas de estufa, ai, sanhor, a rapariga fazia doer nas vistas, as orelhitas brancas, brancas a espreitarem das madeixas do cabelo preto, preto, duas meloas verdes sob o vestido no lugar das mamas, nosso senhor me perdoe, se pudesse, o Lourenço derrubava-a ali mesmo, os dias todos somados a conduzir aquela carreira, à chuva e ao sol, as comadres achavam-lhe graça sim senhor, e ao fim-do-mês não lhe faltava dinheiro para comer-beber-vestir-e-calçar, mas, vá-lá-ver, que vida era aquela, sem uma manita de mulher para lhe apalpar o coração?
Nesse dia, o Lourenço até se esqueceu do farnel que trazia na marmita para o almoço. Estacionou o carro debaixo d’uma sombra e ali ficou derreado a pensar na gaiata. Ao outro dia, quando passou no lugar onde a rapariga tinha subido, o coração batia-lhe debaixo da língua. As comadres nem toparam a ausência do sorriso bacano. A rapariga não aparecera, gaita, pensou, bem vistas as coisas, não era agora, do pé para a mão, que aquela deusa desconhecida havia de entrar no autocarro e lembrar-se de lhe pregar um beijão dialético, qual quê?O Lourenço tinha um sorriso bacano mas o D. Ruan era espanhol e consta que o Tirso de Molina era tamanho petas que, em muchacho, nem a madrezita lhe confiava o biberon. Mas, não interessa, não é relevante saber se nessa altura já havia ou deixava de haver biberons, o que agora ocupa o Lourenço é descobrir a forma mais eficaz de entabular conversa sem parecer otário. Está novamente derreado numa sombra com a cabeça a bulir ..."


estória de Paulo Campos Pereira _______________________________________________o grande final: aqui:




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